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Quando nos perguntam porque fizemos isto ou aquilo, porque decidimos ou optámos de determinada maneira. Podemos responder de duas maneiras: Ou dizemos as verdadeiras razões ou, para preservá-las, podemos responder simplesmente: Cá por coisas...
CONTINUANDO:
Como devem saber a Base Aérea de Beja era uma Unidade onde estavam colocados militares da Força Aérea Alemã (FAA). A Base foi construída com a finalidade de corresponder aos acordos bilaterais entre Portugal e (na altura) República Federal da Alemanha, no sentido de proporcionar facilidades de treino operacional à FAA. Querem saber porquê?
Na altura da nossa "Guerra de África", Portugal viu-se muitas vezes isolado na ONU, e algumas vezes em risco de expulsão, devido à tomada de posição em relação ás colónias. Nós alegávamos que não tínhamos colónias, mas sim províncias como se se tratasse de um Alentejo, Ribatejo ou qualquer outra. A ONU alegava o direito da autodeterminação dos povos. Obviamente Portugal, nestes tempos enfrentou muitos embargos económicos e as relações com a RFA conheceram um grande desenvolvimento ao nível económico/comercial. Por exemplo a espingarda automática G-3 que equipou as nossas Forças Armadas surgiu neste âmbito. Nas várias contrapartidas subsequentes, surgiu o acordo quanto à Base de Beja.
Criada em 1964 esta Unidade começou a ser utilizada pelos alemães a partir de 1970.
Quando fui colocado em Dezembro de 1991, ainda lá estavam os Alemães e a Unidade encontrava-se dividida FAA/FAP. Desde os hangares, serviços, clubes de oficiais/sargentos, alojamentos etc.. tudo estava devidamente separado, inclusive os horários eram diferentes. Os nossos amigos alemães devido ao intenso calor alentejano, iniciavam os trabalhos bem cedo e terminavam pouco depois do almoço.
Porém, houve sempre um salutar convívio entre as duas partes. Muitos alemães gostaram tanto de Portugal que ficaram por cá. Uns trouxeram as famílias , outros casaram com portuguesas. Era normalíssimo ver ao fim de semana os autocarros verde-militar que eles tinham, a partirem bem cedo carregados de pessoal, para as praias da costa alentejana (Melides, Santo André, Porto Covo, Vila Nova de Milfontes...)
Uma coisa que me ficou na memória, foi ver nas noites quentes de Verão, os alemães deitados em sacos cama ao relento debaixo das árvores. Outros chegavam mesmo a trazer as camas para fora dos edifícios, passando a noite debaixo do céu limpo e estrelado.
Lembro-me de três aeronaves que eles mais utilizavam nesta Unidade: F-104, Alpha-jet e um avião de transporte (penso que era um C-130).
Nota: O F-104 (o charuto voador) tem a particularidade de ser uma aeronave com umas asas muito curtas, o que o leva a não ter nenhuma sustentação. Se o motor tiver algum problema, a queda é inevitável. Existe um clube de viúvas do F-104.
Quando os alemães deixaram a Unidade em 1992/1993, não tenho a certeza do ano, deixaram todas as instalações na Base e na cidade (dado que tinham um bairro em Beja para os militares e familiares destacados em Portugal), assim como, 50 Alpha-jets, para a Força Aérea Portuguesa. Neste âmbito, mecânicos, electricistas, pessoal de armamento e equipamento, foram receber formação na Alemanha sobre esta aeronave. Mas há aqui algumas curiosidades a referir:
1 - Dizem que aquela frota Alpha-jet ia ser abatida na FAA. O seu desmantelamento iria ser muito dispendioso, pelo que seria mais fácil utiliza-la como moeda de troca como pagamento do uso da Unidade de Beja. (não sei se seria verdade).
2 - Dos 50 aviões, 10 eram para "canibalizações" isto é, eram armazens de peças para os outros. Também o limite de peças em stock não era o ideal e rapidamente seria gasto.
3 - Quando terminaram o curso na Alemanha as equipas de manutenção encontraram muito livros técnicos de manutenção desta aeronave em alemão. O que era uma barreira muito dificil e grave para definir os procedimentos específicos. Mais tarde foram traduzidas todas para Inglês.
4 - Os próprios livros das aeronaves onde estão registadas as suas inspecções e horas de voo eram em alemão, o que dificultava o conhecimento sobre o limite das horas de voo, inspecções a efectuar, se tinham ou não condições para voar.
Mas o dia da Unidade estava a chegar e os aviões tinham de voar como prova de uma operacionalidade e prontidão capaz de satisfazer os objectivos previstos. Graças ao desenrascanço, empenho e teimosia, conseguiu-se fazer os voos rasantes da praxe sobre as tropas em desfile com cerca de 6 a 9 aviões. Quiseram que eles voassem, eles voaram.
(TO BE CONTINUED)