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Aeronaves III

por Antonovsky, em 17.12.07

CONTINUANDO:

Como devem saber a Base Aérea de Beja era uma Unidade onde estavam colocados militares da Força Aérea Alemã (FAA). A Base foi construída com a finalidade de corresponder aos acordos bilaterais entre Portugal e (na altura) República Federal da Alemanha, no sentido de proporcionar facilidades de treino operacional à FAA. Querem saber porquê?

Na altura da nossa "Guerra de África", Portugal viu-se muitas vezes isolado na ONU, e algumas vezes em risco de expulsão, devido à tomada de posição em relação ás colónias. Nós alegávamos que não tínhamos colónias, mas sim províncias como se se tratasse de um Alentejo, Ribatejo ou qualquer outra. A ONU alegava o direito da autodeterminação dos povos. Obviamente Portugal, nestes tempos enfrentou muitos embargos económicos e as relações com a RFA conheceram um grande G-3desenvolvimento ao nível económico/comercial. Por exemplo a espingarda automática G-3 que equipou as nossas Forças Armadas surgiu neste âmbito.  Nas  várias  contrapartidas subsequentes, surgiu o acordo quanto à Base de Beja.

Criada em 1964 esta Unidade começou a ser utilizada pelos alemães a partir de 1970.

Quando fui colocado em Dezembro de 1991, ainda lá estavam os Alemães e a Unidade encontrava-se dividida FAA/FAP. Desde os hangares, serviços, clubes de oficiais/sargentos, alojamentos etc.. tudo estava devidamente separado, inclusive os horários eram diferentes. Os nossos amigos alemães devido ao intenso calor alentejano, iniciavam os trabalhos bem cedo e terminavam pouco depois do almoço.

Porém, houve sempre um salutar convívio entre as duas partes. Muitos alemães gostaram tanto de Portugal que ficaram por cá. Uns trouxeram as famílias , outros casaram com portuguesas. Era normalíssimo ver ao fim de semana os autocarros verde-militar que eles tinham, a partirem bem cedo carregados de pessoal, para as praias da costa alentejana (Melides, Santo André, Porto Covo, Vila Nova de Milfontes...)

Uma coisa que me ficou na memória, foi ver nas noites quentes de Verão, os alemães deitados em sacos cama ao relento debaixo das árvores. Outros chegavam mesmo a trazer as camas para fora dos edifícios, passando a noite debaixo do céu limpo e estrelado.

Lembro-me de três aeronaves que eles mais utilizavam nesta Unidade: F-104, Alpha-jet e um avião de transporte (penso que era um C-130).

Nota: O F-104 (o charuto voador) tem a particularidade de ser uma aeronave com umas asas muito curtas, o que o leva a não ter nenhuma sustentação. Se o motor tiver algum problema, a queda é inevitável. Existe um clube de viúvas do F-104.

Quando os alemães deixaram a Unidade em 1992/1993, não tenho a certeza do ano, deixaram todas as instalações na Base e na cidade (dado que tinham um bairro em Beja para os militares e familiares destacados em Portugal), assim como, 50 Alpha-jets, para a Força Aérea Portuguesa. Neste âmbito, mecânicos, electricistas, pessoal de armamento e equipamento, foram receber formação na Alemanha sobre esta aeronave. Mas há aqui algumas curiosidades a referir:

1 - Dizem que aquela frota Alpha-jet ia ser abatida na FAA. O seu desmantelamento iria ser muito dispendioso, pelo que seria mais fácil utiliza-la como moeda de troca como pagamento do uso da Unidade de Beja. (não sei se seria verdade).

2 - Dos 50 aviões, 10 eram para "canibalizações" isto é, eram armazens de peças para os outros. Também o limite de peças em stock não era o ideal e rapidamente seria gasto.

3 -  Quando terminaram o curso na Alemanha as equipas de manutenção encontraram muito livros técnicos de manutenção desta aeronave em alemão. O que era uma barreira muito dificil e grave para definir os procedimentos específicos. Mais tarde foram traduzidas todas para Inglês.

4 - Os próprios livros das aeronaves onde estão registadas as suas inspecções e horas de voo eram em alemão, o que dificultava o conhecimento sobre o limite das horas de voo, inspecções a efectuar, se tinham ou não condições para voar.

Mas o dia da Unidade estava a chegar e os aviões tinham de voar como prova de uma operacionalidade e prontidão capaz de satisfazer os objectivos previstos. Graças ao desenrascanço, empenho e teimosia, conseguiu-se fazer os voos rasantes da praxe sobre as tropas em desfile com cerca de 6 a 9 aviões. Quiseram que eles voassem, eles voaram.

(TO BE CONTINUED)

 

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publicado às 22:03


Aeronaves II

por Antonovsky, em 14.12.07

Não sei porque é que estou a escrever sobre isto, deve ser a nostalgia da época natalícia :P. Talvez também porque estou a pensar colocar nestes posts fotos de aeronaves que é algo que fica sempre bem esteticamente numa página da web. Ou ainda a terceira razão...Apeteceu-me :). Enfim continuando:

Fui incorporado na primeira recruta  de 1991 da FAP, éramos cerca de 40 soldados-cadete.   Estas incorporações tinham a particularidade de reunir o mais novos de 17 a 19 anos que se voluntariavam e os "licenciados" que iam adiando a "tropa", de modo a concluir os seus cursos superiores. As idades dos meus camaradas de armas do serviço obrigatório deveria variar entre os 25-35 anos. Resultado, a recruta foi bastante "leve" em termos físicos, dado que não poderiam "apertar" muito com o pessoal mais velho e fora de forma. Fiz a recruta com médicos, oftalmologistas, dentistas, engenheiros, gestores, etc, etc.. Bons conhecimentos, LOL.

Assim que terminei a recruta fui promovido a Aspirante e iniciei de imediato o Curso de Formação. Na minha especialidade éramos apenas 4 alunos da FAP e 2 Guineenses no âmbito dos acordos com os PALOPs. Camará e Sanhá eram os nomes deles, pessoal cinco estrelas.

O Curso correu sem grandes precalços e no final, para nós os quatro, havia o mesmo número de vagas (2 para a Base de Beja, 1 para Base de Monte Real e outra para os Açores). Fiquei colocado em Beja, Base Aérea N.º 11. No próprio dia em que me apresentei, fiz um requerimento para me transferir assim que houvesse outro curso. Porém, gostei tanto daquela cidade, dos "camaradas de armas", dos amigos que fiquei 4 anos lá colocado.

Aeronaves... finalmente

Na altura da minha colocação na BA11, havia apenas uma Esquadra de Voo operacional, com os aviões T-38A Talon, da Northrop Co. Era uma Esquadra de instrução e como tal, as aeronaves não tinham armamento. A Versão "armada" deste avião é o F-5.

É um avião supersónico com uma estética muito interessante, mas que tinha alguns problemas no motor. Dizia-se que os motores tinham sido criados para equipar misseis e por isso não eram feitos para durar... "mitos urbanos".

Fizeram-se muitas horas de voo e formaram-se muitos pilotos aviadores da nossa Força Aérea, até estas máquinas serem "abatidas" em 1992 ou 93 (não estou bem certo da data).

Nas últimas semanas da sua actividade, houve lugar a baptismos de voo, para mecânicos e outros, oficiais, sargentos e praças da Unidade. Uma experiência única, poder voar num avião supersónico, fazer manobras acrobáticas, sofrer a pressão dos Gs e na maior parte dos casos...vomitar. Os pilotos faziam propositadamente essa praxe aos debutantes. Por acaso não voei, porque uns dias depois, houve um incidente (birdstrike) num voo de rotina. A violência do embate foi tal devido à velocidade da aeronave, que um simples pássaro estilhaçou a canopy do piloto da frente, destruiu-lhe o capacete, ferindo-o no rosto. Por sorte era outro piloto que ia no avião, caso fosse um "baptismo de voo" o outro tripulante não teria conseguido aterrar e o acidente seria bem mais grave. Resultado: acabou-se as "boleias" e infelizmente o piloto deixou de exercer a sua profissão, não sei se para sempre.

Outra coisa que recordo e  que gostava bastante eram os voos nocturnos. Pessoal da torre, bombeiros, equipamento auxiliar, mecânicos, pilotos, todos de prevenção.  A pista ficava iluminada de várias cores, o azul da combustão dos motores na sua potência máxima, naquela vasta planicie alentejana. Um espectáculo.

 

(TO BE CONTINUED)

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publicado às 16:50


Aeronaves I

por Antonovsky, em 13.12.07

Fui militar na Força Aérea Portuguesa durante 8 anos. Nunca me tinha passado pela cabeça ser um militar "profissional", simplesmente foi uma oportunidade de emprego. Não fazia a mínima ideia dos postos militares dos Oficiais, Sargentos e Praças nas Forças Armadas, pois não tinha nenhum militar de carreira na família, nem sequer conhecido e, devo dizer, que também não procurei informar-me.

Por tudo isto, não é de estranhar que quando fui "voluntariar-me" aos 18 anos, no Centro de Recrutamento Militar, na Avenida da Liberdade em Lisboa, ia com a ideia de frequentar um curso de Cabo Especialista (mecânico de aeronaves, electrónica, ou qualquer outro que tinha visto no anúncio da TV) para mais tarde, sabendo que seria um contrato a termo certo, pudesse exercer uma actividade no mercado de trabalho civil. Quando lá cheguei e dei os meus dados, a senhora que me atendeu disse-me que tendo o 12º ano de escolaridade podia concorrer para oficial miliciano (contratado). Melhor ainda, pensei eu, e aguardei que me chamassem para testes psicótecnicos, médicos e físicos.  

Foi uma experiência muito interessante conhecer gente de todos os cantos do país, incluindo Açores e Madeira, reunidos na Base do Lumiar, todos nós com a uma chapinha identificativa com a palavra Old fashion - "Mancebo". Também foi enriquecedor fazer uma panóplia de testes psicotécnicos e psicomotores que jamais tinha visto. Mas acima de tudo, foi interessante observar os nossos comportamentos: os nervosos, os faladores, os calados, os ansiosos, os engraçados, os com medo de falharem por serem magros demais ou gordos demais, ou por terem óculos, ou ainda porque já tinham chumbado uma vez nos testes para piloto e tentavam agora outras especialidades.

No que respeita á minha pessoa, é claro estava nervoso e nessa altura da minha vida era mais calado e observador. Porém, penso que a minha vantagem foi a ignorância de ser a primeira vez neste tipo de selecção e  a ausência de grandes espectativas ou sonhos em relação à Instituição em que estava prestes a entrar.

Fiquei muito admirado com a cultura técnico-militar (vamos chamar-lhe assim) de alguns concorrentes. Não só sabiam muitas coisas da organização militar, como de ...Aeronaves. Muitos exibiam os seus conhecimentos enumerando os todos modelos que a FAP tinha na altura, assim como a sua tipologia (caça, intersecção, transporte, busca e salvamento, comunicações...) bolas, pensei eu (quantos motores tinham, hélices ou jactos) tou feito, não tenho hipotese nenhuma com estes tipos.

Mas lá fui passando as fases e fiquei "dentro das vagas" que estavam em aberto. A remuneração era aliciante. Após a recruta (de apenas 2 meses) passaria de Soldado-cadete a Aspirante-a-oficial e passado um ano promovido a Alferes. Tinha apenas de frequentar com aproveitamento um curso de formação de oficiais de cerca de 9 meses, no Centro de Formação Militar e Técnica da Força Aérea situado na, actualmente tão célebre, OTA

O Curso? Técnico de Manutenção de Material Aéreo.

Sabia alguma coisa de aeronaves? Não.

Já tinha voado alguma vez? Não.

Gostava da perspectiva de voar? Hummm, nem por isso.

Adaptei-me bem? Não podia ter melhor adaptação.

 

(TO BE CONTINUED)

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publicado às 20:50


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